terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

O Bicho-Papão

 
Foto: Mayara Collere

Uma noite dessas eu estava lendo para o Tiago um livro sobre lendas brasileiras, do Maurício de Souza. Ele já tinha ouvido quase todas e estava adorando, mas quando comecei a ler a última, sobre a Cabra Cabriola, que basicamente é o Bicho Papão, ele ficou com medo e pediu para parar.

Nos dias seguintes eu até pensei que esse medo poderia me ser útil, já que a tal Cabra só aparece para as crianças desobedientes, e fiquei tentado a invocá-la sempre que ele cometia alguma travessura – como ainda fazem alguns pais e avós. Mas então eu lembrei do quanto é ruim ter esse tipo de medo, devido a um evento em especial da minha infância.

Eu devia estar com uns dez anos, e acabei assistindo a um filme de terror bem sangrento. Aquilo me impressionou tanto que eu não consegui dormir sozinho durante meses! Sempre que as luzes se apagavam, eu imaginava que um maníaco mascarado iria aparecer no meu quarto.

Fiquei com trauma de filmes de terror, e aquilo começou a me trazer problemas, porque meus amiguinhos estavam na fase de gostar deste tipo de passatempo e sempre queriam se reunir para ver alguma fita do gênero. E eu, é claro, tinha que ficar inventando desculpas para não ir.

Eu tinha ataques de pânico só de olhar as capas das fitas na locadora, e aquilo era terrível. Era um peso que me limitava muito, e eu precisava vencê-lo. Foi nessa época que li que o amor aproxima, enquanto o medo afastava. Então decidi: a única forma de eu não ter medo de filmes de terror, era passar a amá-los!

Comecei então uma jornada longa e cheia de tropeços para realizar essa façanha, e meu primeiro passo foi comprar uma revista sobre filmes de horror. Lá eu aprendi muito sobre o gênero, inclusive descobri como fazer sangue falso e vi fotos da produção de alguns filmes, que faziam parecer que as gravações eram bem divertidas.

Aos poucos criei coragem para alugar um filme desses, não muito forte, do qual eu acabei gostando. E, lentamente, fui aprendendo a amar o gênero. Hoje eu posso dizer que sou um grande fã de filmes de terror. 

Por ter vivido isto, eu penso que o medo de monstros e fantasmas faz parte do desenvolvimento do Tiago. É uma fase, que logo passará, e vamos lidar com isso da mesma forma como estamos fazendo com todos os outros desafios como pais: usando a nossa intuição e o nosso coração para decidir o que é melhor para nosso filho.

Pensando bem, aquele meu medo me ensinou muito e me ajudou a ser quem eu sou hoje. Ele não foi um problema: foi um conselheiro, um bom amigo. E acho que isso vale para todas as coisas ruins que temos que enfrentar. 

Então, quando vejo o Tiago diante de algo que ele não quer encarar, a minha primeira reação não é a de livrá-lo daquilo. Procuro, antes, fazê-lo aprender mais uma lição. E, neste caso, é a de que dentro da caverna que mais tememos entrar encontra-se o tesouro que nós mais procuramos.

Um abraço!

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

O que a exposição fez com nossa vida?

Foto: Mayara Collere
Poucos meses atrás eu era o tipo de pai que nem postava fotos do meu filho no Facebook, com medo da exposição. Hoje há vídeos e imagens do Tiago circulando entre milhões de pessoas, e não só permito que desconhecidos tirem fotos com ele quando o reconhecem na rua, como isso me deixa muito feliz.

O que será que me fez mudar tanto, em tão pouco tempo?

Bem, eu nasci e vivi a maior parte da minha vida em uma cidadezinha de interior, digna dos livros do Stephen King. Fui uma criança feliz, que brincava no mato, andava de bicicleta e tinha amigos por toda a vizinhança. Crescer naquele lugar me deu uma noção de comunidade que eu jamais teria em uma cidade populosa.

Bastava colocar o pé na rua, e a gente já começava a ver rostos conhecidos. E em todo lugar aonde eu ia, alguém comentava: “Ah, você é filho de fulano!”, “Eu estudei com a sua irmã!”. “Manda um abraço pro seu tio!”, “Você é a cara da sua mãe!” e por aí vai. Se faltava dinheiro na hora de pagar a conta na loja, o vendedor dizia: “Não tem problema. Depois você traz o resto”.

Por muito tempo eu não soube como era viver de outro jeito, até que me mudei para a capital, quando fiz a faculdade. Precisei me adaptar à cidade grande, pois lá eu já não era reconhecido por ninguém - era apenas mais um rosto estranho e sem nome no meio da multidão.

Já o Tiago nasceu e vive na capital, e ele provavelmente nunca saberia como é se sentir parte de uma comunidade pequena, onde todos se conhecem. Ele cresceu praticamente fechado em casa e sem fazer ideia de como é ir ao mercado sabendo o nome do açougueiro, conhecendo o filho do padeiro e sendo chamado pelo nome, mesmo por quem ele não conhece.

Mas hoje em dia isto mudou. Com o sucesso do Show do Tiago, o meu filho está experimentando uma sensação que ele só teria se tivesse nascido em uma cidade pequena. Agora nós vamos à feira, e no meio da multidão alguém fala: “Oi, Tiago! Eu adoro seus vídeos!”.

Às vezes acontece de ganharmos descontos e presentes que não nos dariam se fôssemos estranhos. São pessoas que nós não conhecíamos pessoalmente, mas que conhecem a nossa família, graças a tudo o que temos publicado, e elas fazem questão de demonstrar seu carinho através de atitudes muito gentis.

A exposição, que eu tanto temia, trouxe este resultado incrível: agora, mesmo em uma cidade com milhões de pessoas, eu volto a ter aquela sensação de proximidade e de comunhão, exatamente como era na minha infância, onde todos eram amigos.

E isso acontece também dentro de casa, graças à internet. Basta abrir o computador e está lá uma mensagem da Bahia, um conselho de Minas Gerais, um abraço do Mato Grosso, um bom dia de Londres. É como se fôssemos vizinhos de cerca com o resto do mundo!

É claro que isso também pode trazer riscos, mas eu acredito em uma coisa: não podemos deixar de fazer o que temos vontade, apenas por conta do medo. Certa vez eu li que o medo é o oposto do amor. Enquanto um afasta, o outro aproxima. E eu estou adorando todo o contato, as gentilezas, enfim, e todo esse calor humano que estamos recebendo desde que tomei coragem de publicar o primeiro vídeo do meu filho na internet.

Hoje eu sinto que tenho uma família enorme e que o Tiago vai poder contar não só com os parentes, mas com milhares de pessoas que se importam com ele. Eu sempre serei muito grato a vocês, fãs do Show do Tiago, por me ensinarem que vale a pena deixar os medos de lado e a seguir o que fala o coração.


Muita gratidão a todos vocês! 

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Surpresas todos os dias


Nem em meus sonhos eu poderia imaginar que, aos 4 anos, o Tiago seria como é hoje. Mas a verdade é que, desde o dia em que eu soube que seria pai, a minha vida teve uma série de surpresas, então eu não me espanto que ele tenha saído tão diferente do que eu imaginava.

Para começar, quando soubemos da gravidez, eu e a Rafa nem éramos casados. Namorávamos há um ano, e cada um morava em uma cidade, a 150 km de distância. Não estava nos planos nos tornarmos pais, mas ao mesmo tempo nós nos amávamos e já estávamos maduros o suficiente para assumir esta responsabilidade. 

Então, se em janeiro de 2012 uma vidente tivesse previsto como estaria a minha vida em dezembro do mesmo ano, eu teria rido dela. Entre esses meses eu simplesmente descobri que seria pai, mudei de cidade, de emprego, noivei, casei e vi o meu filho nascer! 

Mas as surpresas começaram pra valer a partir do nascimento. Eu não tinha nenhuma experiência com crianças, e do dia para a noite tive que aprender a dar banho em um recém-nascido, a fazer mamadeira, a fazê-lo dormir, trocar fraldas, etc. Foi difícil, mas deu tudo certo.

Hoje, olhando para trás, vejo que nestes 4 anos como pai, em todos os dias houve algum tipo de desafio. E creio que isso vai continuar pela vida toda. Mesmo assim, a paternidade é uma viagem que vale a pena!

Cada sorrisinho do Tiago, cada palavra que ele fala errado de um jeito fofo, cada vez que ele me abraça... enfim, todas essas pequenas surpresas do dia-a-dia são recompensas, que pagam todas as dificuldades que nasceram com a paternidade.

Ainda não sei o que o Tiago se tornará. Para mim será outra surpresa o caminho que ele vai escolher, seja o de cozinheiro, ou de Youtuber, médico, ator ou o que mais ele escolher.

Sempre lembro de uma carta que escrevi a ele, quando ainda estava na barriga da mãe. Eu escrevi dizendo que o meu maior sonho para a vida dele era um só: o de que ele amasse muito! Que ele amasse a nós, seus pais, como nós já o amávamos. Que amasse a vida. Que ele logo descobrisse algo que amasse fazer e que, quando crescesse, conhecesse alguém que ele amasse e que o amasse também, para formar também uma família e, enfim, completar este ciclo de amor que faz o mundo girar.

Até agora estou muito satisfeito, porque o meu filho ama muito as pessoas à sua volta, e ama o Elvis, os personagens de Star Wars, ama quebrar ovos, fazer vídeos, ama rir e fazer a gente rir. 

Espero que ele continue sempre assim, descobrindo cada vez mais coisas que ama, pois é isto que o fará feliz nesta vida. E recomendo o mesmo a cada um de vocês: descubra o que você ama e dê um jeito de viver sempre com isto. Um grande abraço!

Luiz Fernando – pai do Tiago