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| Foto: Mayara Collere |
Uma noite dessas eu estava lendo para o Tiago um livro sobre lendas brasileiras, do Maurício de Souza. Ele já tinha ouvido quase todas e estava adorando, mas quando comecei a ler a última, sobre a Cabra Cabriola, que basicamente é o Bicho Papão, ele ficou com medo e pediu para parar.
Nos
dias seguintes eu até pensei que esse medo poderia me ser útil, já que a tal
Cabra só aparece para as crianças desobedientes, e fiquei tentado a invocá-la
sempre que ele cometia alguma travessura – como ainda fazem alguns pais e avós.
Mas então eu lembrei do quanto é ruim ter esse tipo de medo, devido a um evento
em especial da minha infância.
Eu devia
estar com uns dez anos, e acabei assistindo a um filme de terror bem sangrento.
Aquilo me impressionou tanto que eu não consegui dormir sozinho durante meses!
Sempre que as luzes se apagavam, eu imaginava que um maníaco mascarado iria
aparecer no meu quarto.
Fiquei
com trauma de filmes de terror, e aquilo começou a me trazer problemas, porque
meus amiguinhos estavam na fase de gostar deste tipo de passatempo e sempre
queriam se reunir para ver alguma fita do gênero. E eu, é claro, tinha que ficar
inventando desculpas para não ir.
Eu
tinha ataques de pânico só de olhar as capas das fitas na locadora, e aquilo
era terrível. Era um peso que me limitava muito, e eu precisava vencê-lo. Foi
nessa época que li que o amor aproxima, enquanto o medo afastava. Então decidi:
a única forma de eu não ter medo de filmes de terror, era passar a amá-los!
Comecei
então uma jornada longa e cheia de tropeços para realizar essa façanha, e meu
primeiro passo foi comprar uma revista sobre filmes de horror. Lá eu aprendi
muito sobre o gênero, inclusive descobri como fazer sangue falso e vi fotos da
produção de alguns filmes, que faziam parecer que as gravações eram bem
divertidas.
Aos
poucos criei coragem para alugar um filme desses, não muito forte, do qual eu acabei
gostando. E, lentamente, fui aprendendo a amar o gênero. Hoje eu posso dizer
que sou um grande fã de filmes de terror.
Por
ter vivido isto, eu penso que o medo de monstros e fantasmas faz parte do
desenvolvimento do Tiago. É uma fase, que logo passará, e vamos lidar com isso da
mesma forma como estamos fazendo com todos os outros desafios como pais: usando
a nossa intuição e o nosso coração para decidir o que é melhor para nosso
filho.
Pensando
bem, aquele meu medo me ensinou muito e me ajudou a ser quem eu sou hoje. Ele não
foi um problema: foi um conselheiro, um bom amigo. E acho que isso vale para
todas as coisas ruins que temos que enfrentar.
Então,
quando vejo o Tiago diante de algo que ele não quer encarar, a minha primeira reação
não é a de livrá-lo daquilo. Procuro, antes, fazê-lo aprender mais uma lição.
E, neste caso, é a de que dentro da caverna que mais tememos entrar encontra-se
o tesouro que nós mais procuramos.
Um
abraço!

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